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Entrevista a Victor Serra de Almeida – Presidente da Fundação Belchior Carneiro

Entrevista a Victor Serra de Almeida – Presidente da Fundação Belchior Carneiro

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Victor Serra de Almeida, que pertenceu ao ultimo executivo da administração portuguesa em Macau, contou à Raia Diplomática, como foi sentido a transferência da administração de Macau para a China pela comunidade portuguesa, e o abandono quase completo das entidades portuguesas, especialmente do Instituto Camões, e ainda falou um pouco da Fundação Belchior Carneiro, à qual preside.

A comunidade portuguesa residente em Macau sentiu alguma diferença de tratamento com a passagem da administração de Macau para a República Popular da China?

Na globalidade não. Todos os meus contactos, todas as impressões e todas as informações que eu tenho é no sentido de que, tirando um ou outro receio, de uma ou outra família nos primeiros tempos, eram meramente receios, foram imediatamente desvanecidos com o passar dos tempos, portanto, as pessoas continuam a fazer a mesma vida que tinham, o mesmo quotidiano e portanto a vida não mudou, a administração mudou, mais nada.

Em relação às entidades oficiais portuguesas, houve alguma alteração na promoção da língua e cultura portuguesa no território, nomeadamente no apoio às associações?

Infelizmente, sobre isso tudo o que eu poderia dizer é muito negativo. Os problemas continuam os mesmos e o apoio e o interesse do governo português em relação a esses assuntos é praticamente nulo, têm havido problemas com a escola portuguesa e o governo português praticamente não tem actuado em nada. Eu contínuo com a minha tese, no dia 20 de Dezembro de 1999, Portugal em termos oficiais, deu um grande suspiro por dizer já nos livramos desta e mais nada, fechou a loja, fechou a janela, fechou a porta em relação àquela comunidade e a toda a história que nós temos lá. Infelizmente a minha posição é negativíssima, a minha opinião é negativa em relação ao Governo Português.

Qual tem sido então, o papel do Instituto de Camões em Macau?

Praticamente não existe nada. Há uma coisa que se chama IPOR que vai tentando fazer alguma coisa, a escola portuguesa está a tentar, bem como a Fundação Oriente também com muitos problemas e muitas quezílias em relação à comunidade local, a Fundação Oriente não é bem vista lá em Macau, não interessa agora explicar as razões, de maneira que anda tudo aos empurrões e muito pouco é feito em relação à continuação da cultura. A manutenção da cultura portuguesa tem sido efectivada através da presença da comunidade Macaense, sem nenhuns apoios. Temos várias associações que vão fazendo obra e é isso… Portanto, só existe a intervenção de movimentos locais, residentes locais. São actividades vindas da sociedade civil e em termos oficiais muito pouco.

Existe algum risco da RAEM perder parte da sua autonomia para a RP da China e tornar-se apenas uma região como todas as outras da China continental?

Isso será uma posição da China, mas tudo indica que a China viu que há determinadas zonas do seu país que interessa à China ter um estatuto diferente. Não sabemos qual irá ser o estatuto de Macau daqui a quarenta anos, por certo muita coisa mudará, também não sabemos como vai ser a China e que regime irá ter daqui a quarenta anos. Mas pelos vistos, até agora isso tem sido positivo para a China. Não me parece, pelos indicadores de hoje, que a China tenha interesse em mudar, obviamente que eu não posso fazer futurologia para dizer que a China se vai transformar num sistema igual ao das regiões administrativas especiais ou se as regiões administrativas especiais irão desaparecer e serão inseridas no contexto do resto da China, não sabemos. Não sabemos, nem ninguém sabe, isto é futurologia, de qualquer maneira penso que, sabendo alguma coisa da China e da História Chinesa, a China fará sempre o que for pragmaticamente mais vantajoso para a China, isto das regiões administrativas especiais de Macau e de Hong Kong são medidas puramente pragmáticas, uma visão realística do que lhes interessa -o que nos interessa? É isto. Pois então vamos fazer isto. Nesse aspecto podemos ir aquela velha frase do Deng Xioping; não interessa a cor do gato, se é preto, amarelo ou branco, seja o que for, o que interessa é que cace ratos. Interessa para a China ter estas regiões administrativas especiais, porque economicamente e em outros aspectos interessa à China.

Qual foi o maior legado, na sua opinião, que os portugueses deixaram em Macau?

A comunidade macaense, mais do que as pedras, mais do que as ruínas de São Paulo, é a comunidade macaense, é aquele grupo de famílias, os Xavieres, os Sousas, os Silvas, enfim, toda uma série de gente que é portuguesa, sente-se profundamente portuguesa, que vive em Macau com as características de uma comunidade mista, mas continuando fortemente portuguesas e a lutar pela presença portuguesa e cultura portuguesa. Será uma realidade também, por exemplo, da comunidade malaquenha, em Malaca, à qual Portugal também nunca ligou nenhuma e está a ser a mesma coisa em relação à comunidade macaense. Não existe qualquer tipo de apoio, no sentido de preservar ou ajudar essa comunidade, completamente negativa a minha opinião em relação aos governos portugueses, isto é geral.

Quais são os maiores objectivos da Fundação Belchior Carneiro?

A Fundação foi criada pela Santa Casa da Misericórdia, instituição de primeiro plano em Macau, em toda a história de Macau, a par do Leal Senado no campo político- administrativo e a Santa Casa no campo social. Fundada em mil quinhentos e qualquer coisa, portanto finais do século XVI. A Santa Casa a certa altura, no contexto do princípio dos anos 90 do século passado, em 91/92, quando já haviam datas para a transição da administração e nesse contexto, pensou que se previa um certo êxodo de famílias macaenses para Portugal e portanto, teria interesse criar cá uma instituição para apoio às famílias mais necessitadas, que se transfeririam para cá. Acontece que isso não se verificou e eu também fui dessa tese, não acreditava que viesse grande parte da população macaense como aliás sucedeu. O macaense é de Macau e seja com que administração for, o macaense tem as suas raízes lá. Mas a primeira instituição foi criada e foi criada com determinado capital, depois houve também a aquisição de um Solar em Oeiras, o solar e uma quinta, mas depois verificou-se que esse solar e essa quinta não tinham condições adequadas para a construção do lar, que é um dos objectivos principais da Fundação, a construção de um lar para as pessoas necessitadas e então tivemos de alienar esse terreno porque havia problemas burocráticos, de registo do terreno. Foi uma luta incrível, mas felizmente lá se conseguiu resolver o assunto. Alienou-se o terreno e depois a Câmara Municipal de Oeiras, muito amavelmente, exerceu o direito de preferência na compra dessa quinta e amavelmente deu-nos um terreno em direito de superfície para construção do lar. É nessa situação que estamos, é esse o ponto actual, ou seja, já temos o projecto pronto, está-se a ultimar o projecto de engenharia, esses projectos finais para apresentar à Câmara, para termos então a licença de construção. O lar será para cerca de 39/40 pessoas e obviamente, à primeira vista, pensamos não poder preencher todos os lugares com pessoas de Macau porque lá está, aquilo que se esperava não se verificou, mas se houver muito bem, se não houver, faremos um acordo com a Segurança Social para recolher pessoas necessitadas. Neste momento o nosso grande projecto é o lar, entretanto e paralelamente a isso, estamos a dar apoio a cinco pessoas macaenses com problemas sociais e económicos graves.

Que tipo de outros apoios tem tido a Fundação?

Por enquanto nada, também não estamos em actividade, obviamente quando tivermos o lar, entraremos em contacto com todas as instituições, quer públicas, quer particulares não só em busca de apoios como também para colaborarmos em tudo neste âmbito social de apoio à terceira idade.

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