“Ki Nobas”?
Pergunta um luso-descendente do Bairro Português de Malaca a querer saber novidades. Esta é uma das expressões que oiço habitualmente. Um pouco do nosso Portugal longínquo e flutuante, herança portuguesa de uma outra geração.
Um dia, uma amiga chinesa visitou-me em Malaca e levei-a a conhecer a comunidade. Cruzámo-nos com o Senhor António, que caminhava com o seu carrinho de mão e as suas redes de pesca ao longo da rua Teixeira. Apresentei-o falando em inglês, dizendo que era o meu amigo António. A minha amiga disse “Hello Anthony”, ao qual ele respondeu “My name is António, Portuguese name” apertando a mão e sorrindo.
A identidade de um povo, assim como de uma comunidade, sente-se na alma das pessoas quando convivemos com elas no dia-a-dia, sente-se na sua vontade de querer ser, na forma como reagem e interpretam a sua história e como a projectam no futuro.
“Na isti parti di mundo”, deparei-me com várias gerações de pessoas orgulhosas da nossa identidade. O senhor que canta o fado, a criança que joga ao berlinde, o jovem que dança folclore, a senhora que confecciona bolos tradicionais, o senhor da mercearia.
Conheço gente com verdadeira alma lusitana sem nunca terem visitado Portugal. Sentem-se portugueses, sem renegarem a sua nacionalidade Malasiana. Houve uma evolução diferente do Português na comunidade luso-descendente de Malaca, uma evolução que resultou da simples vontade e necessidade de querer comunicar na língua materna. Foi esta vontade, este sentir, esta necessidade de se identificarem com os seus antepassados que permitiu que ainda hoje se possa ouvir em Malaca: “Sou Português”.
Existem alturas em que a emoção é muita ao ouvir estas pessoas a afirmar serem portugueses. Ao princípio achamos estranho, mas depois os nossos compatriotas explicam que a identidade portuguesa não é coisa que se perca porque nasceu com eles.
Oiço histórias que não vêm nos livros. Conservam-se expressões de um Português dito antigo, como “muita mercê” em vez de obrigado, “pedra friu” em vez de gelo, “pintura” em vez de fotografia, “cavalo di ferru” em vez de bicicleta.
Todas estas expressões, entre outras, foram e continuam a ser transmitidas oralmente de geração em geração entre as famílias luso-descendentes sem qualquer tipo de imposição. Até aos dias de hoje (século XXI), com o decorrer do tempo, o seu vocabulário tornou-se bastante limitado e a sua pronúncia tem sido modificada.
Passados 500 anos, em cada casa existe uma história, em cada casa existe um herói português, em cada casa existem várias famílias luso-descendentes, em cada pessoa existe o saudosismo, a saudade ou a “saudadi”.
Vivo numa destas casas e aprendi que estar “longe de casa” não significa apenas deixar o espaço físico. Só o sabemos quando realmente o experienciamos.
Eu por cá vou continuar a lembrar a todos quem somos e onde estamos.
Cátia Candeias
Coordenadora do Projecto “Povos Cruzados”

Congratula-se a Associação Cultural Coração em Malaca (ACCM) com a publicação da Raia Diplomática, relevando que o artigo “Ki Nobas” dá a conhecer um pouco da grandeza de Portugal no Mundo.
Divulgar para lembrar que em 2011, se comemoram os 500 anos da chegada de Afonso de Albuquerque a Malaca é reforçar a amizade entre os Povos Cruzados na construção de Futuros Possíveis.
Obrigada a todos que tornaram possível a edição
Bem hajam
Luisa Timóteo
Presidente
E o que fazer agora, 500 anos passados, com essa saudade e com essa “alma portuguesa”? Há vontade institucional de a fazer permanecer, ou crescer, nesses orgulhosos portugueses que vivem do outro lado do oceano? Chegarão os vestígios portugueses às gerações futuras?
Faço votos que sim. Farei a minha parte.
Obrigada pelo trabalho em prol da preservação das Raízes Portuguesas,
Madalena Canas
Fabuloso este texto redigido por Cátia Candeias, ‘’ Ki Nobas’’?
Através das suas palavras temos a noção plena da vontade de um povo, que passados 500 anos, conserva de geração em geração a identidade de alma lusitana , afirmando-se portugueses de Malaca e falando a língua de Camões .
– Mais parece uma fábula que uma realidade!…..
A esta realidade tão pura e genuína, todos nós, os de chão lusitano, não podemos ficar indiferentes, devendo de alguma forma contribuir para fortalecer a Lusitana Malaca.
Vamos todos escrever nos nossos facebook , MACA É LUSITANA
Madalena Filipe
Corrijo – leia-se MALACA É LUSITANA
A vida é um poema belo e longo.
Escreve-se sobre tanta coisa e lendo sobre Malaca tenho a certeza que já conseguimos que os nossos compatriotas do Bairro Português de Malaca, Malásia sejam reconhecidos.
Bem haja. É um orgulho para Portugal.
Obrigada Raia Diplomática por ter feito este convite.
Saudações de Torres Vedras
Este texto é delicioso. Responde a algumas das nossas preocupações de compreender o outro, neste caso um povo que continua a falar utilizando palavras deste país, que se orgulha de ser português de Malaca! É bonito sentir este respeito pela sua cultura. Orgulho de ser António e não Anthony! Exemplo para todos nós portugueses.
Os portugueses de Malaca honram os nomes, os costumes do português … as palavras, os versos das cantigas, o folclore. Recebem de forma notável quem os procura com respeito, naturalmente com uma grande curiosidade, pois colocam na sua arte energia e emoção, que nos pode a nós portugueses de Portugal chegar às lágrimas de emoção de partilha de história comum, e nos preenche de muita alegria!
Cátia acho que neste apontamento esclareces muito bem o que é ser português de Malaca. Bem-hajas.
Bem-hajam todos!