Estudar para que te quero (2ª parte)
Quando encabeçava o Departamento de Gestão Autárquica, num determinado dia, no final do ano lectivo, recebo uma chamada de um colega, que me informava do interesse de um deputado em frequentar aquele curso, e queria fazer o exame na minha cadeira. Acrescentava ainda o professor, que seria de interesse para a universidade, pelo que aconselhei-o a contactar-me. Aconteceu que o deputado telefonou-me, dizendo que queria completar o curso de Gestão Autárquica. Sugeri que se inscrevesse e fizesse os respectivos exames. No dia definido do exame à cadeira de Gestão das Organizações compareceu. Desconhecendo os conteúdos programáticos foi atribuído a nota de oito, sendo neste caso obrigatório realizar exame oral. Não compareceu a este exame. Telefonou-me dias mais tarde, e acordamos que estivesse presente em horário de expediente. Esteve presente no dia combinado, informou-me que não tinha disponibilidade, estava muito ocupado, e que não tinha tempo para nada. Contudo, alvitrei que apresentasse um trabalho bem elaborado sobre o conceito organizacional do Parlamento (local de trabalho). Imagino que não era muito difícil. De facto, até hoje, nunca mais avistei esta pessoa.
A atribuição das equivalências da forma com que sucedeu é desprestigiante para a universidade e alunos que concluíram os seus cursos com esforço e mérito. Agora indevidamente se pensa que os diplomas são atribuídos de forma lisonjeira. Tudo isto desprestigia as universidades privadas, que têm ao longo dos anos, caído em precipícios onde dificilmente se levantarão. Recordo com conhecimento de causa, que a cadeira de Inglês Técnico foi causa de levantamento nacional, por ter sido atribuída a um domingo, e se Sócrates teve ou não aqueles professores. As situações não são minimamente comparáveis, Sócrates era Bacharel em Engenharia Civil pelo Instituto politécnico de Coimbra, tinha concluído algumas cadeiras no ISEL, faltavam-lhe quatro cadeiras para completar o curso de licenciatura. Por esse facto o seu percurso académico foi enxovalhado na praça pública, frente à nação inteira, em horário nobre, passando por três instituições, faltando-lhe quatro cadeiras, em que na minha opinião poder-lhe-iam ter sido atribuídas de forma directa e sem rodeios. Tinha exercido funções de Secretário de Estado, e Ministro do Ambiente, defendendo as suas causas em debates televisivos opinativos, esgrimindo os seus argumentos com clareza, firmeza e conhecedor das causas comentadas. Eram três ou quatro cadeiras que estavam em causa para obtenção do grau de licenciado. Por estes ínfimos motivos, encerraram compulsivamente uma universidade! Era desejado pelas outras instituições privadas, que viam, sem esforço, o número dos seus alunos aumentar. O próprio Primeiro-ministro, caíu na armadilha das privadas quando transmitiu ao Ministro da Educação o encerramento da UnI, não quis mais ouvir falar daquela instituição. Aconteceu que deixaram os professores competentes desprovidos de trabalho, sem pagamento dos tributos devidos, elevados a milhares de euros, e os trabalhadores não docentes foram despedidos de forma vil. Os estudantes, engrossaram as fileiras de outras instituições. Os certificados das cadeiras, pedidos pelas instituições acolhedoras, tinham de incluir os programas, a carga horária, os professores, e o mais gravoso denotou-se quando a Secretaria do Ensino Superior levava anos a entregar os respectivos documentos. Enfim…um peso e duas medidas! A uns oferecem o curso sem esforço, a outros complicam de forma consciente acabrunhando, os seus legítimos direitos. É notório que o processo de Bolonha obriga a aulas presenciais, as faltas superiores a três implicam reprovação à disciplina, assim deveria ser!
É sabido o quanto as famílias se esforçam para os seus entes concluírem os cursos superiores, com dificuldades pessoais, em muitos casos deixarem de comer para pagar as propinas. Outros sorrateiramente, por serem políticos ou outra coisa qualquer, são-lhes atribuídas trinta e duas cadeiras, supostamente por possuírem percursos profissionais relevantes, porém, subsistem sérias e fundadas dúvidas, que os conhecimentos enunciados sejam bastantes e suficientes para existir o reconhecimento do título de licenciado.
Não é de estranhar que as instituições de ensino superior tenham relações privilegiadas com o poder político, ainda hoje ignoro os verdadeiros motivos desta promiscuidade. Os estudantes frequentam respeitando escrupulosamente a frequência das cadeiras ao longo do percurso académico, a troco de muito esforço pessoal, familiar, e financeiro. Outros com métodos duvidosos obtêm uma licenciatura (bacharel), passando por cima de tudo e todos. Estas pessoas devem governar-nos? Não vos parece que estes políticos estão intrínseca e irremediavelmente pejados de incapacidade moral, quando tomam decisões em nome da nação?
Verificamos que as instituições de ensino superior estão encurraladas pelas forças ocultas, na detenção de poderes educacionais e ideológicos conferidos. Quantas universidades privadas, por força de institutos ocultos foram encerradas nos últimos anos?
Os filhos da nação legitimamente perguntam se estudar serve para alguma coisa, não será melhor ingressar na política activa na juventude. Estou em querer, que com feitos destes, as universidades portugueses terão muita dificuldade em se afirmar no panorama do ensino português aquém e além-fronteiras.
José Carlos Henriques
Advogado e Professor Universitário
*Com o contributo da Dr. Helena Horta

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